Deus Fala?
|
Que significa
que só podemos conhecer Deus pela
revelação? De facto, esta é uma questão
fundamental da fé cristã e um divisor de águas face às religiões em geral. O
Deus dos cristãos é um Deus que se revela, por oposição aos “ídolos mudos” das
religiões pagãs (expressão de Paulo em 1 Cor. 12:1-2). De facto, há duas formas
de concebermos Deus: Ø
Como um «Deus
desconhecido» (Actos 17:23), a que o homem procura chegar através da sua razão – é este o caminho da religião; Ø
Como um Deus
que se revela, isto é, que se dá a conhecer ao homem naquilo que Ele mesmo
considera ser importante ele conhecer – este é o caminho da revelação. A razão O caminho da religião baseia-se na
razão humana, e, por isso, está à partida votado ao fracasso. Ninguém pode
alcançar a mente e a infinita diversidade de Deus através da razão. A Bíblia
afirma, peremptoriamente: «Ora, o homem natural não compreende as
coisas do Espírito de Deus, porque lhe parecem loucura; e não pode entendê-las,
porque elas se discernem espiritualmente» (1Co 2:14). A mente humana é um instrumento
magnífico em muitas áreas da vida e do conhecimento. Deus dotou o homem de
inteligência e o seu exercício é algo maravilhoso que recebe a aprovação e
bênção de Deus. Simplesmente, no que toca ao conhecimento de Deus, a razão é um
instrumento de alcance absolutamente ineficaz. Como Deus falou a Isaías (55:8): «Porque os meus pensamentos
não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos
os meus caminhos, diz o SENHOR». A razão cria representações de deus, geralmente antropomórficas;
isto é, projectam na figura da divindade características da própria natureza
humana. A mitologia greco-latina é um dos melhores exemplos dessa forma de
conceber os deuses como, afinal, muito semelhantes aos seres humanos, apenas
vivendo numa dimensão distinta. Essas representações da divindade são as mais variadas:
desde as mais simples e grosseiras, como as que encontramos nas civilizações
menos desenvolvidas, até às mais sofisticadas, como as que hoje vigoram no
imaginário de muitas pessoas. Mas, simples ou refinadas, todas têm em comum a mesma
origem: a razão humana. A revelação A razão parte do homem para Deus. A revelação vem de Deus até ao
homem. Paulo escreveu que as coisas que a razão humana nunca poderia alcançar «Deus
no-las revelou pelo seu Espírito; porque o Espírito penetra todas as coisas,
ainda as profundezas de Deus» (1Cor. 2:10). E o apóstolo João (1:18)
observou: «Deus nunca foi visto por alguém. O Filho unigénito, que está no seio
do Pai, esse o revelou». Que diferença! A razão perde-se numa infinitude de imagens de
deus(es), muitas vezes contraditórias. Mas o Evangelho apresenta-nos Deus como
uma Pessoa viva que toma a iniciativa de se revelar ao homem e que, por isso, é
possível conhecer! Como se revela Deus ao homem? A própria criação revela-nos Deus: é a chamada revelação natural. É impossível ficar indiferente às maravilhas que
Deus criou a atribui-las ao acaso: «Os céus
declaram a glória de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas mãos»
(Salmo 19:1). No entanto, o homem endureceu o seu coração de tal forma
que deixou de perceber Deus na criação. Paulo explica isso nos seguintes termos
(Romanos 1:19-21): «Porquanto o que de Deus
se pode conhecer neles se manifesta, porque Deus lho manifestou. Porque as suas
coisas invisíveis, desde a criação do mundo, tanto o seu eterno poder, como a
sua divindade, se entendem, e claramente se vêem pelas coisas que estão
criadas, para que eles fiquem inescusáveis;
porquanto, tendo conhecido a Deus, não o glorificaram como Deus». Por isso, Deus preparou uma revelação, clara e definitiva,
ao alcance do homem de qualquer raça, época ou cultura: a PALAVRA (ou Verbo). a)
A
Palavra escrita – revelada aos profetas: a que encontramos na Bíblia. b)
A
Palavra viva, que se fez carne – Deus feito homem em Jesus de Nazaré. A Palavra-escrita e a
Palavra-pessoa são indissociáveis e têm a sua origem na mesma pessoa: o Filho
eterno de Deus. -
«No
princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus» (..). E o
Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do
unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade» (Jo. 1:1, 14). -
«Havendo
Deus antigamente falado muitas vezes, e de muitas maneiras, aos pais, pelos
profetas, a nós falou-nos nestes últimos dias pelo Filho»
(Hb 1:1). -
Jesus
explicou (João 5:39): «Examinais as Escrituras, porque vós cuidais
ter nelas a vida eterna, e são elas que de mim testificam». -
Em
Apocalipse (19:13), João vê Jesus glorificado e descreve-o nos seguintes
termos: «E estava vestido de uma veste
salpicada de sangue; e o nome pelo qual se chama é a Palavra de Deus». [Leia
na secção de Perguntas o artigo “O
que faz da Bíblia um livro tão importante para os cristãos?”] Jesus
de Nazaré, o Cristo de Deus, trouxe-nos a perfeita revelação de Deus: -
«Quem
me vê a mim, vê aquele que me enviou. (…) Disse-lhe Jesus: Estou há tanto tempo
convosco, e não me tendes conhecido, Filipe? Quem me vê a mim vê o Pai; e como
dizes tu: Mostra-nos o Pai?» (Jo 12:45; 14:9). -
«Deus
nunca foi visto por alguém. O Filho unigénito, que está no seio do Pai, esse o
revelou» (João 1:18). Babel ou Betel? Há duas fortíssimas
imagens no Velho Testamento que ilustram a diferença entre religião e
revelação. A primeira é a torre de Babel
(Gén. 11:19 – a própria palavra Babel é significativa, uma vez que o seu
sentido é “confusão”). Os homens tentaram construir uma torre que chegasse aos
céus, sem, obviamente, o conseguirem. Este é o projecto da religião do homem:
chegar a Deus pela razão, através dos seus esforços, redundando afinal em
confusão e contradição. A segunda é a
experiência de Jacó em Betel (Gén.
28:15-19 – Betel significa «casa de Deus») , quando, num sonho, vê o céu aberto
e uma escada que desce dos céus até à terra. Ali Jacó escuta a voz de Deus
falando com ele, e vê anjos de Deus subindo e descendo pela escada. O segredo está
nessa escada, posta entre o céu e a terra, entre Deus e os homens. Qual o
significado dessa escada? Numa clara alusão à visão de Jacó, em João 1:51, Jesus diz que essa escada é o “Filho do
homem”, isto é, Ele mesmo: «Na verdade, na verdade vos digo que daqui em diante vereis o céu
aberto, e os anjos de Deus subindo e
descendo sobre o Filho do homem». O sonho
de Jacó ilustra claramente o que é a revelação: Jesus, o Filho de Deus, faz a
ligação entre Deus e os homens. Por Ele (e só por Ele) vamos ao Pai: «Eu
sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vem ao Pai senão por mim»
(João 14:6). E por Ele temos acesso à operação do Espírito Santo que, na figura
dos anjos, opera constantemente em favor dos que vão herdar a salvação (Heb.
1:14). Esquematicamente, podemos resumir a diferença entre
razão e revelação da seguinte forma:
|
